Identidade de Gênero: todas e todos temos uma!

por Rodolfo Godoi

“Questões de gênero”, “Identidade de Gênero”, “Sexo”, “Sexuliadade”. Todas essas são palavras que vira e mexe aparecem no nosso cotidiano. Esses termos surgiram no debate público através de uma série de mobilizações políticas e sociais que aconteceram na história, muitas vezes encabeçadas por mulheres.

Mas afinal, o que é identidade de gênero? Esse termo faz referência a como nós nos apresentamos para a sociedade enquanto “homens” ou enquanto “mulheres”. Quando uma mulher está grávida é muito comum que logo se pergunte a ela “qual o sexo do bebê?”. Queremos saber se é um menino, ou menina, e logo criamos inúmeras expectativas, desde como essa pessoa irá se vestir, como será seu corte de cabelo, como será sua postura na sociedade, quais tipos de trabalhos são mais propícios para ela etc, e inclusive que tipo de pessoa (homem ou mulher) ela deverá se relacionar afetivamente no futuro.

Estamos nesse momento atribuindo uma identidade para esse bebê. Acontece que todos nós temos várias identidades, a depender de nossa profissão, nosso local de nascimento, nossa cor etc. A identidade de gênero é mais uma dessas possíveis identidades.

Blogueiro no Câmara Ligada. Fotógrafo: Luis Carlos Lopes.

Blogueiro Rodolfo Godoi no Câmara Ligada.
Fotógrafo: Gustavo Lima

Para começar é importante diferenciar algumas coisas: enquanto o “sexo” é uma característica natural – algumas pessoas nascem com pênis e outras com vagina –  a identidade de gênero é o que nos torna homem ou mulher. Na nossa sociedade homens e mulheres são educados de formas diferentes, eles devem gostar de azul e brincar de carrinho, elas de rosa e brincar de boneca, eles devem se comportar assim e elas assado. A identidade de gênero é portanto essa construção social.

Muitas pessoas reconhecem em sí mesmas a identidade que as outras pessoas do mundo esperam dela, ou seja: por uma pessoa ter um pênis esperam que ela seja um homem, e de fato ela se sente assim. Essas são pessoas cisgêneras*

Outras pessoas não reconhecem ou não dão legitimidade para as expectativas que os outros colocaram nela. Algumas pessoas nascem com vagina e não se reconhecem enquanto meninas/mulheres, mas enquanto meninos/homens. E o contrário também: Algumas pessoas nascem com pênis e se reconhecem enquanto meninas/mulheres, essas são pessoas transexuais. Outras pessoas ainda nascem com um pênis e passam a vivenciar uma identidade que incorpora condições da masculinidade e da feminilidade, muitas vezes desejando serem reconhecidas por um nome feminino, são as travestis.

Infelizmente as pessoas transgêneras (travestis e transexuais) sofrem inúmeros processos de preconceito, discriminação e marginalização em nossa sociedade. É muito comum, por exemplo, que se acredite que travesti é um termo sinônimo de prostituição. De fato, no Brasil, muitas travestis são profissionais do sexo, e assim como as mulheres profissionais do sexo, elas também sofrem muito preconceito. Contudo, é muito importante entender que para muitas travestis a prostituição acaba sendo uma das poucas atividades profissionais que conseguem exercer, muitas delas não são aceitas pela família e são perseguidas e violentadas nas instituições de ensino, esses dois ambientes (casa e escola) que para muitas e muitos jovens são espaços de acolhimento, para as travestis e transexuais podem ser um espaço de maior violência e vulnerabilidade.

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Programa sobre “Identidade de Gênero” com Lia Sophia.
Fotógrafo: Gustavo Lima.

O preconceito e a discriminação se tornam quase um ciclo sem fim, pois além das empresas rejeitarem a presença de travestis e transexuais dificultando o acesso a o mercado de trabalho, a falta de formação acadêmica torna as coisas ainda mais difíceis. Felizmente a organização social e política tem lutado para conseguir contornar o preconceito, como a do portal transempregos.com.br**

No campo do direito a saúde, uma das reinvindicações colocadas na agenda política é a despatologização das identidades trans. Como assim? Para a medicina a transexualidade e a travestilidade são doenças, ou seja patologias. Num passado não muito distante a homossexualidade também era entendida como uma doença pela medicina, e através de muita luta política esse quadro pode ser revertido. O diagnóstico de “transtorno de gênero” implica no não reconhecimento da autonomia das pessoas transgeneras sobre suas vidas e seus corpos. Ainda que muitas pessoas transgeneras passem por algum tipo de sofrimento psiquico é importante entender que isso não advem de uma essencia da sua condição, ou seja, as pessoas transgeneras não sofrem porque são transgeneras, mas muito pelo preconceito social que vivenciam desde a mais tenra idade.

Por outro lado o direito a cirurgias que modificam os corpos, como o implante de seios para mulheres transexuais e travestis e a retirada do utero e seios para homens transexuais deve ser garantida dentro do Sistema Único de Saúde, o SUS, uma vez que ele nos garante o direito a saude integral. Isso significa que temos direito a saude em todos os seus aspectos, não só quando estamos doentes.

identidade de genero

Por fim, é comum que se faça confusão também quanto a sexualidade e a identidade de gênero. Apesar de essas questões serem muito pecualiares e vivenciadas por cada ser humano de uma forma diferente, alguns discursos preconceituosos insistem em tentar qualificar as travestis e as/os transexuais como se estivessem no topo de uma escala de desvio, como se fossem “mais homossexuais”. Mas é importante entender que não é regra que uma travesti relacione-se afetiva e sexualmente apenas com ‘homens’, ou que um homem transexual prefira exclusivamente mulheres. Uma travesti pode ser bissexual, ou um homem transexual pode ser homossexual, enfim, as possibilidades afetivas e indenitárias são infinitas. Para cada ser humano uma experiência única de identidade, afeto e prazer.

Afinal, que bom que não somos todos iguais!

E ainda que falemos em preconceito contra minorias, não devemos esquecer que as regras sociais que regulam como homens e mulheres devem se comportar em sociedade estão colocadas para todas e todos. 

Alguns filmes contam as histórias dessas pessoas, que tal acompanhados com pipoca? Vale uma pesquisa.

-Meninos Não Choram

-TransAmerica

-Meu Amigo Claudia

-Minha Vida em Cor de Rosa

-Má Educação

*O termo cisgênero é muito recente, e tem surgido dentro dos espaços acadêmicos para dar conta das identidades de gênero que correspondem com a esperada socialmente, assim buscamos não enxergar as pessoas transgêneras como desviantes ou forma das normas. Para mais informações: http://pt.wikipedia.org/wiki/Cisg%C3%A9nero

** http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,ha-vagas-para-transexuais-e-travestis,1093997,0.htm

Rodolfo Godoi é ator e sociólogo
Integrante do Conselho Jovem do Câmara Ligada